Meu filho começou a gaguejar: quando isso faz parte do desenvolvimento e quando merece atenção?
Quando a fala muda de repente:
Existe uma frase que costuma chegar à consulta carregada de preocupação:
"Meu filho falava normalmente e começou a gaguejar."
Muitas vezes, os pais descrevem que a mudança parece ter acontecido de uma hora para outra.
A criança começa a repetir palavras, interrompe frases, parece perder o fio da conversa ou demora mais para conseguir dizer o que está pensando.
E é natural que isso assuste.
Principalmente porque a fala é uma das áreas do desenvolvimento que as famílias mais acompanham de perto.
Mas existe um ponto importante:
Nem toda gagueira significa a mesma coisa.
E, na infância, algumas mudanças na fluência da fala podem fazer parte do próprio desenvolvimento da linguagem.
O desenvolvimento da linguagem nem sempre acontece de forma linear
Entre os 2 e os 5 anos, a linguagem passa por um período de crescimento muito intenso.
O vocabulário aumenta rapidamente.
As frases ficam maiores.
As ideias se tornam mais complexas.
A criança quer contar histórias, fazer perguntas, explicar o que aconteceu no dia e compartilhar pensamentos que estão surgindo em velocidade cada vez maior.
Em alguns momentos, parece que o pensamento está correndo mais rápido do que a fala consegue acompanhar.
E é justamente nessa fase que podem surgir repetições de palavras, hesitações e interrupções durante a conversa.
Muitas crianças passam por esse período.
E, na maioria das vezes, isso acontece sem sofrimento, sem esforço para falar e sem impacto importante na comunicação.
Como costuma ser a gagueira que faz parte do desenvolvimento?
Quando a dificuldade está relacionada a esse período de reorganização da linguagem, algumas características costumam aparecer.
A criança pode repetir palavras inteiras:
"Eu... eu... eu quero brincar."
Ou reiniciar frases:
"Eu fui... eu fui... eu fui no parque."
Muitas vezes essas repetições aparecem mais quando ela está cansada, muito animada, ansiosa ou tentando contar algo rapidamente.
Também é comum que existam dias melhores e dias piores.
Em alguns momentos a fala parece completamente fluente.
Em outros, as repetições ficam mais evidentes.
Apesar disso, a criança geralmente continua falando com espontaneidade.
Ela não parece preocupada com a própria fala.
Não evita conversar.
E a comunicação segue acontecendo.
Quando a situação merece um olhar mais atento?
Nem toda gagueira observada na infância faz parte apenas do desenvolvimento.
Alguns sinais sugerem que vale aprofundar a avaliação.
Um deles é quando a criança começa a demonstrar esforço para falar.
Os pais podem perceber tensão no rosto, movimentos associados, dificuldade para iniciar palavras ou momentos em que a fala parece "presa".
Também merece atenção quando a criança demonstra frustração, evita determinadas palavras ou passa a falar menos por receio de errar.
Outro ponto importante é a persistência.
Oscilações temporárias costumam acontecer.
Mas quando as dificuldades permanecem por períodos prolongados ou parecem se intensificar ao longo do tempo, vale buscar orientação.
História familiar de gagueira também é uma informação relevante e deve ser considerada durante a avaliação.
O que costuma acontecer em casa:
Quando os pais percebem a mudança, é muito comum tentar ajudar.
Frases como:
"Fala devagar."
"Respira."
"Calma."
"Vai com calma."
costumam surgir por cuidado e preocupação.
Isso não acontece porque a família está fazendo algo errado.
Acontece porque ver um filho com dificuldade para falar gera ansiedade.
Mas, muitas vezes, o que mais ajuda não é corrigir a fala.
É oferecer tempo.
Escutar sem completar frases.
Permitir que a criança termine o que quer dizer.
E manter a comunicação acontecendo de forma natural.
Quando procurar avaliação com um fonoaudiólogo?
Nem toda criança que apresenta repetições na fala precisa de intervenção imediata.
Mas existem situações em que uma avaliação especializada pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo.
Vale procurar orientação quando:
- a dificuldade persiste ao longo do tempo;
- existe esforço visível para falar;
- a criança demonstra frustração com a própria fala;
- passa a evitar falar ou participar de conversas;
- os episódios parecem estar se tornando mais frequentes ou mais intensos;
- existe histórico familiar de gagueira.