Tela na infância: mais importante do que contar minutos é observar o espaço que ela ocupa
Quando alguém começa a procurar informações sobre telas na infância, geralmente está procurando uma de duas coisas.
Uma validação:
"Até onde posso ir sem estar fazendo mal ao meu filho?"
Ou a confirmação de um medo:
"Será que estou deixando meu filho tempo demais na tela?"
Por isso, mais do que repetir quantas horas uma criança pode ficar diante de uma tela em cada idade, quero falar sobre como eu penso esse assunto na prática.
Porque uma coisa é importante entender desde o começo que nem todo contato com telas significa a mesma coisa.
Uma criança pequena olhar algumas vezes para a televisão enquanto o pai assiste a um jogo não é a mesma coisa que colocar um desenho para ela assistir.
Uma videochamada com a avó que mora longe não é a mesma coisa que entregar um celular para ela ficar assistindo vídeos curtos enquanto os pais jantam.
E, em uma viagem de carro, depois de conversar, brincar, cantar e interagir a criança de todas as formas possíveis, olhar algumas fotos da família no celular pode ser uma solução perfeitamente razoável.
Isso não significa que telas sejam necessárias.
Significa apenas que a vida real não funciona como uma tabela de recomendações.
TEMPO DE TELA POR IDADE
ATÉ APROXIMADAMENTE DOIS ANOS
Até aproximadamente dois anos, eu não vejo motivo para colocar uma criança diante de uma tela para assistir a qualquer coisa que seja.
Nessa fase, ela precisa muito mais de gente.
Olhar.
Conversar.
Brincar.
Explorar.
Mexer.
Experimentar.
Descobrir.
Uma olhada ocasional para a televisão ligada enquanto os adultos assistem algo não é o fim do mundo. Não precisamos transformar isso em culpa.
O que vale a pena evitar é colocar uma tela especificamente para prender a atenção de um bebê ou de uma criança pequena. Nessa idade, não queremos uma criança em silêncio apenas porque está hipnotizada por um mundo virtual.
A exceção aqui, para crianças que já entendem o que isso significa, são os dois eventos que comentei: chamada de vídeo com parentes distantes e/ou olhar fotos com os pais.
E DEPOIS DOS 2 ANOS?
Agora a pergunta mais importante é: qual a função e o que o acesso a telas está causando na vida da criança?
Essas são as perguntas que mais me interessam.
A criança está usando a tela esporadicamente, com acesso a conteúdo compatível com a idade, e continua brincando, correndo, conversando, explorando, inventando coisas?
Continua mais interessada por pessoas do que pelo objeto?
A linguagem continua evoluindo de maneira adequada?
Consegue desligar a tela quando chega a hora?
Dorme bem?
Ou a tela começou a ocupar o lugar da brincadeira, da conversa, do movimento, da convivência e está até atrapalhando o sono?
Respondendo a essas perguntas encontraremos situações diferentes para cada contexto familiar.
O QUE A TELA ESTÁ SUBSTITUINDO?
Note que não é apenas o tempo de tela que importa. É o que a tela está substituindo.
Uma criança que passa uma hora assistindo a um conteúdo escolhido pelos pais em um momento no qual eles realmente não conseguem dar a devida atenção, mas que depois vai brincar no quintal com eles, está vivendo uma experiência diferente daquela que passa uma hora no celular enquanto está no parquinho ou fica vidrada apenas porque os adultos querem que ela permaneça quieta.
No segundo caso, a tela está roubando justamente aquilo que ela precisa para se desenvolver bem.
O movimento.
A exploração.
A conversa.
O tédio.
A descoberta.
A possibilidade de uma criança encontrar uma pedra e transformá-la em um animal, um graveto em uma espada ou uma poça em uma aventura.
É nesse momento de aparente ócio que a infância acontece e o desenvolvimento flui espontaneamente.
E quando a tela ocupa o espaço que não devia?
Esse é outro sinal ao qual presto muita atenção.
A criança está entediada?
Tela.
Está irritada?
Tela.
Está comendo?
Tela.
Estamos no restaurante?
Tela.
Está no carro?
Tela.
Precisamos conversar com outro adulto?
Tela.
Não acredito que o uso eventual transforma ninguém em um mau pai ou uma má mãe.
Mas, se a tela começa a ser a nossa principal ferramenta para impedir que a criança fique entediada, frustrada, inquieta ou simplesmente seja criança, vale parar e rever o caminho que estamos seguindo. Quando a tela passa a ocupar todos esses espaços, os prejuízos encontram terreno para aparecer.
Aqui os adultos precisam lembrar que crianças devem ser crianças. Isso inclui fazer barulho, brincar, interromper conversas e não necessariamente conseguir ficar sentadas à mesa enquanto os pais jantam.
Às vezes elas precisam esperar.
Conversar.
Observar.
Brincar sozinhas.
Ou simplesmente ficar entediadas.
Faz parte da nossa função ajudá-las a passar por todos esses eventos e, muitas vezes, precisaremos recalcular a rota para incluir a energia da criança no seu dia a dia.
Isso tudo faz parte do relacionamento que vocês estão construindo.
Sobre o conteúdo:
Aqui existe uma diferença enorme entre escolher algo para a criança assistir e entregar a ela um fluxo infinito de conteúdo.
Eu prefiro vídeos que contem uma história com começo, meio e fim, tenham ritmo mais tranquilo e menos cortes ou mudanças rápidas de cenário.
Sempre algo escolhido e assistido previamente pelos adultos.
E, principalmente, nada de ficar deslizando o dedo para descobrir qual será o próximo vídeo.
Redes sociais e feeds de vídeos curtos não são uma boa opção para crianças, a bem dizer nem para adultos.
Não porque todo vídeo curto seja, isoladamente, prejudicial.
Mas porque essas plataformas foram desenhadas para manter nossa atenção.
A criança não precisa aprender tão cedo a viver em um fluxo infinito de estímulos.
Como saber se o uso está trazendo algum prejuízo?
Sempre vamos observar a criança e os sinais que ela nos dá ao longo do tempo.
A linguagem continua evoluindo da maneira esperada para a idade?
A comunicação e interação com os adultos, outras crianças e com o meio continua acontecendo?
O brincar e interagir com outras pessoas continua sendo o que mais acontece ao longo do dia?
Continua explorando o mundo com olhos de criança?
Continua correndo, mexendo, cutucando, inventando?
Consegue fazer a transição da tela para outra atividade sem grandes dificuldades?
O humor continua parecido?
O sono continua bom?
A tela está ocupando cada vez mais espaço?
Essas perguntas me dizem muito mais do que olhar isoladamente para o relógio e o tempo máximo sugerido por idade. Uma criança de 3 anos pode ter um prejuízo enorme com menos do que uma hora de tela ao dia, assim como, na mesma idade, assistir um filme completo no domingo à tarde pode não mudar nada.
Agora um ponto importante para vocês: nem todo prejuízo aparece imediatamente.
Às vezes, a mudança é pequena e progressiva.
A televisão ligada de plano de fundo aos poucos atrai mais a atenção, o brincar começa a desaparecer, desligar o celular e mudar de atividade se torna uma guerra, o sono fica cada vez mais agitado...
Por isso, o olhar precisa ser longitudinal.
Não é:
"Meu filho assistiu televisão ontem. Será que fez mal?"
É:
"O que está acontecendo com meu filho desde que a tela passou a ocupar esse espaço na rotina?"
E os números?
Eles continuam sendo importantes.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda:
0 a 2 anos: evitar telas.
2 a 5 anos: até 1 hora por dia.
6 a 10 anos: 1 a 2 horas por dia.
11 a 18 anos: 2 a 3 horas por dia.
Esses limites são referências, não uma licença para preencher todo o tempo disponível com tela. A própria SBP enfatiza a supervisão, a mediação do conteúdo e a preservação de sono, atividade física, convivência e outras experiências importantes para o desenvolvimento.
E eu acrescentaria uma regra simples:
Quanto menor a criança, mais importante é pensar no que ela está deixando de viver enquanto olha para uma tela.
QUANTOS MINUTOS DE TELA MEU FILHO PODE USAR?
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja:
"Quantos minutos de tela meu filho pode usar?"
Mas:
"Que lugar a tela está ocupando na vida dele?"
Se ela ocupa apenas uma pequena parte da vida, às vezes como uma ferramenta utilizada pelos pais com sabedoria e parcimônia, e a criança continua sendo criança, provavelmente estaremos diante de algo bem diferente daquela criança cuja infância inteira acontece através de uma tela.
O que não queremos é deixar que a tela ocupe o lugar da infância.